terça-feira, 22 de novembro de 2016

O fim

Diz o povo, na sua imensa sabedoria, que tudo o que tem um começo alcançará o seu fim. Como excepções são poucas ou nenhumas e a regra teima em prevalecer, também este blog vê o seu tempo de vida terminado. Foram mais de oito anos, muitas palavras, muitos assuntos, muitas opiniões e muitas horas de pesquisa e escrita. Foi um projecto que me fez crescer em termos intelectuais e do qual sempre me orgulharei, muito embora a sua visibilidade tenha sido sempre muito baixa.
Mas se aqui se regista um términus, a minha veia literária não me permite estar longe da blogosfera. Este pseudónimo continuará a fazer-se notar e o outro projecto que mantinha em paralelo com este continuará bem activo.
A todos os que por aqui passaram de forma mais ou menos visível, o meu muito obrigado. Não se voltará a rabiscar aqui.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

They brexit! Woh's the next?

Saudações amistosas, caros leitores.
Entornou-se o caldo. O Reino Unido é o primeiro membro a abandonar a União Europeia, reduzindo agora o lote para vinte e sete. A Europa está em choque, o mundo inteiro a acompanhar atentamente o desenrolar dos acontecimentos e a tentar perceber o verdadeiro impacto desta autêntica bomba política, diplomática, económica e social. Um dia marcante que poderá mudar radicalmente o curso da História no "Velho Continente".
Há muito que a União Europeia é vista como um projecto falhado, com inúmeras insuficiências e no qual os interesses divergentes dos vários países-membros nunca serão convergentes. Os resultados do referendo que David Cameron decidiu promover (opção da qual já se terá arrependido incontáveis vezes) vieram apenas e só confirmar uma ideia que tem ganho força nos últimos anos: a União Europeia está moribunda. Cameron cedeu às pressões internas para realizar o referendo e o que dele emana pôs a nu toda a fragilidade desta construção europeia. Apesar de equilibrado (51,9% a favor da saída e 48,1% a favor da permanência), o resultado acaba por ser a demonstração prática do descontentamento geral em relação ao espartilho imposto pela UE. O agora demissionário primeiro-ministro inglês, será mais tarde recordado como o detonador de um engenho explosivo poderoso que só aguardava isso mesmo: um dedo que premisse o botão para dar origem à explosão. Os compostos destrutivos, esses, já estavam reunidos há muito. Mais: David Cameron corre ainda o risco de ficar ligado à desunião do Reino Unido, visto que escoceses e norte-irlandeses votaram maioritariamente a favor da permanência, o que pode originar uma cisão irreversível. Abriu, portanto, a caixa de Pandora.
Não se pode condenar os britânicos (ou os ingleses, os principais representantes da saída uniforme do Reino Unido) pela deriva agora adoptada. Pode-se, sim, questionar os motivos. Na base da decisão estão necessariamente as questões relacionadas com a imigração, com a recuperação do controlo das suas fronteiras e os alegados constrangimentos que representa a ocupação de postos de emprego por parte de cidadãos de outros países da União Europeia, o que demonstra, de alguma forma, uma faceta xenófoba que os britânicos se têm esforçado por esconder. Se a isto juntarmos o argumento (este, sim, razoável) da demasiado elevada contribuição financeira dos britânicos para o orçamento comunitário, então temos tudo justificado.
O Brexit, que era apenas hipotético e agora passou a ser real, pode ter sido a estocada final na União Europeia e no que ela representa (ou devia representar). O efeito dominó será uma inevitabilidade e daí até à total desintegração poderá ser um pequeno passo. Depois do sucesso que constitui este referendo britânico para os partidários da facção anti-europeista nos mais diversos países-membros, não tardarão novos referendos e, muito possivelmente, desfechos semelhantes ao que se verificou em terras de Sua Majestade. Os partidos de extrema-direita não perderão a magnífica oportunidade que é este Brexit e quererão também referendar a permanência numa União Europeia cada vez mais enfraquecida.
Não me assusta um futuro com um projecto europeu completamente desintegrado. Não partilhando dos mesmos motivos pelos quais os movimentos de extrema-direita querem o fim da União Europeia, sou defensor da ideia que este modelo e o Papel de subserviência que Portugal desempenha tão bem não serve os interesses de um país cujas fronteiras são as mais antigas do continente europeu. Nas circunstâncias difíceis em que nos vemos mergulhados, será preferível libertar-nos a vivermos com a canga que os países-membros mais poderosos teimam em impor-nos. Passaremos por grandes dificuldades a curto-prazo, até admito, mas o longo-prazo será definido dentro das nossas metas e ambições, sem intromissões e ingerências externas. A perda de soberania, ainda que esteja mais ou menos maquilhada, é uma realidade e Portugal nunca, em tempo algum, deve ser parte de uma construção onde tal seja possível.
Assumindo que somos uns dos elos mais fracos desta "máquina" obsoleta e estamos descontentes, assumindo igualmente que o Reino Unido era um dos elos mais fortes dessa mesma "máquina" e optou pela saída, assoma-me uma pergunta à mente: se não serve nem a fracos nem a fortes, a União Europeia serve, afinal, a quem? A pergunta tem de ser colocada aos europeístas, aos defensores deste projecto dcrépito cujo prazo de validade há muito expirou. Só eles terão a resposta certa. Ou não... ou não!
Apetece-me ainda fazer outra pergunta. Neste caso, a Aníbal Cavaco Silva. Será que agora 28-1 passa a ser 27, como seria caso fosse a Grécia a sair, ou 28-1 passa a ser 0? Senhor ex-Presidente da República, faça lá o favor de responder da sua tumba, na qual todos agradecemos que permaneça...
Seja como for, há algo que é certo: nada será como antes na Europa e estamos muito longe de conhecer todas as implicações deste processo de ruptura iniciado pelo Reino Unido. Não podendo fazer grandes exercícios de adivinhação, resta-nos aguardar. Estou, contudo, crente que não teremos de aguardar muito...
Até ao próximo rabisco, amigos do antes e do depois.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Um campeão que vale por três!

Cumprimentos à campeão, queridos leitores.
O Benfica é tricampeão nacional de futebol. Trinta e nove anos depois, o clube da Luz volta a festejar semelhante conquista, numa época que se adivinhava tão complicada e que acabou coroada de glória. Uma época extraordinariamente difícil, que começou titubeante (recorde-se que o Benfica chegou a ter 8 pontos de desvantagem para o primeiro classificado) e que terminou com um recorde de pontuação num campeonato de 34 jornadas e com a vitória a valer três pontos. Foram 88 pontos, marca que superou a do F.C. Porto de Mourinho, que em 2003/04 (época da conquista da Liga dos Campeões pelos portistas) somou 86 pontos. O Benfica, para além da pontuação recorde, marcou 88 golos, demonstrando uma veia goleadora fortíssima, e sofreu apenas 22, dando provas de uma solidez defensiva assinalável. Mas se este campeonato tinha no Benfica, bicampeão em título, um competidor tido pela crítica desportiva como inferior aos outros crónicos candidatos, o que aconteceu para que o título permanecesse nas mãos dos encarnados pelo terceiro ano consecutivo?
A meu ver, há quatro momentos fulcrais durante a temporada que garantiram o sucesso. O primeiro aconteceu na 8-ª jornada, quando o Benfica recebeu o Sporting no Estádio da Luz. A perder por 0-3, os 63 mil adeptos (eu incluído) levantaram-se dos seus lugares e provaram o seu amor ao clube, gritaram «eu amo o Benfica!» durante os últimos 20 minutos do jogo e mostraram à equipa que estavam incondicionalmente com ela. O segundo momento decisivo acontece com a entrada de Renato Sanches no onze da turma da Luz. O jovem de 18 anos, formado no Benfica, veio trazer uma dinâmica ao meio-campo das águias que até ali não se via. Ao Benfica faltavam ideias naquele sector do campo e as dificuldades na construção de jogo estavam bem patentes. Com Renato Sanches, o Benfica ganhou não só uma dimensão ofensiva estupenda como uma grande consistência no meio-campo, visto que a nova contratação do Bayern consegue, com a sua disponibilidade física e com os seus recursos técnicos, conferir a vivacidade necessária naquele espaço do terreno nas diferentes fases do jogo. O terceiro momento-chave dá-se quando Rui Vitória responde a Jorge Jesus. Depois de ser constantemente provocado e humilhado pelo seu antecessor, o actual técnico dos tricampeões nacionais decidiu responder à letra ao treinador dos leões, uma pretensão não escondida por Jesus cujo resultado final acabou por não ser do seu agrado. Vitória deu "troco" a Jesus e os seus jogadores perceberam que tinham ali um líder a toda a prova, correspondendo imediatamente com uma goleada de 6-0 ao Marítimo. Dali em diante, os comandados do treinador ribatejano perderam somente três pontos, numa segunda volta absolutamente espectacular. O quarto momento e, porventura, o mais saboroso para os benfiquistas regista-se em Alvalade, na 25.ª jornada, quando os encarnados vencem por 0-1 e assumem o comando do campeonato para não mais o largar.
Rui Vitória acaba por ser o grande obreiro desta retumbante conquista. Foram dele as decisões técnico-tácticas que permitiram ao Benfica ter uma incrível performance dentro de campo e foram também da sua personalidade serena e humilde que saíram as respostas a quem duvidava da sua competência e capacidade. Eu próprio tenho de fazer um mea culpa. Apesar de há muito defender a entrada de Rui Vitória para o comando técnico da equipa de futebol do Benfica, inclusivamente durante o consulado de Jesus, confesso que duvidei que o alverquense fosse o homem certo na altura certa. O Futebol do Benfica era fraco em termos exibicionais, os desaires frente ao Sporting sucediam-se de forma violenta e a revalidação do título parecia uma miragem ainda durante o primeiro terço da temporada. No entanto, Rui Vitória nunca duvidou de si mesmo e Luís Filipe Vieira também não deixou cair o homem em quem havia depositado a sua confiança no início da época. Os resultados dessa estreita ligação estão à vista.
Há quem tente desvalorizar esta conquista e se esforce por atribuir vitórias morais ao segundo classificado, falando de um futebol mais atraente praticado pelos comandados de Jorge Jesus. Sinceramente, pouco me importa. O Benfica foi mais consistente, mais regular, exibiu-se em grande nível em determinadas alturas e cilindrou os seus adversários jornada após jornada, acabando como o melhor ataque da prova. Se isto não for suficiente, digo que a melhor equipa não é aquela que mostra o futebol mais bonito, mas sim aquela que consegue controlar todas as fases do jogo, quer em termos ofensivos, quer em termos defensivos. Nestes aspectos, meus amigos, o Benfica foi imbatível.
Há alguns anos atrás, quando via o F.C. Porto somar títulos em cima de títulos, perguntava-me o que sentiriam os adeptos azuis-e-brancos. Era um espaço temporal em que o meu clube nada ganhava e eu ficava a pensar se aqueles campeonatos sucessivamente conquistados teriam algum sabor ou se perderiam valor à medida que eram ganhos. Bom, não posso falar em nome dos portistas, claro, mas hoje sei que a conquista de um tricampeonato tem um sabor muito, muito especial. E este, sendo conquistado nas condições em que foi, é algo que não consigo descrever. Com tanta manigância, com tanto ruído, com campanhas de comunicação que só serviram para baixar o nível da reputação do futebol português, este título acaba por ser inteiramente justo e merecido por todos os que batalharam por ele de forma séria e dentro dos limites da honra. No futebol, como em tudo na vida, não vale tudo. Este foi um dos valores que me transmitiram e que tenho como essencial para poder andar de cabeça erguida. Felizmente, quem orienta o clube que será sempre o do meu coração também o perfilha. Outros haverão que não o fazem, mas esse é um problema que não é meu nem do Benfica. As consequências, positivas ou negativas, ficam para quem actua de forma mais ou menos correcta. Nós, benfiquistas, vamos festejando... bailando!
Até ao próximo rabisco, gloriosos amigos!

terça-feira, 3 de maio de 2016

Dos ricos não reza esta história

Saudações calorosas, queridos amigos.
É o futebol transformado num conto de fadas. O Leicester, contra todas as expectativas, sagra-se campeão inglês de futebol. Nunca em 132 anos de história o tinha conseguido, tendo apenas conquistado um segundo lugar no longínquo ano de 1929. Para termos uma noção mais exacta do que é este clube, basta referir que há sete anos atrás estava na Division One (o terceiro escalão do futebol inglês), há apenas três estava ainda no Championship e na época passada só conseguiu a manutenção na Premier League na penúltima jornada, depois de passar grande parte da época a carregar a "lanterna vermelha" do que é, na minha humilde opinião, o campeonato mais espectacular do mundo. Está muito longe, por isso, de estar habitualmente na discussão de títulos em terras de Sua Majestade e merece todo o destaque que lhe tem sido conferido pela imprensa desportiva mundial e pela tribo do futebol, que, ao ver a incrível caminhada da equipa comandada pelo italiano Claudio Ranieri, foi-se juntando no apoio aos foxies.
Com uma equipa formada por jogadores que eram, até ao início da época, ilustres desconhecidos, dos quais se destacam N'golo Kanté (ou o "pulmão de Leicester", como é apelidado), Riyad Mahrez (o argelino considerado o melhor jogador da Premier League desta época e que custou apenas 600 mil euros aos cofres do clube liderado pelo tailandês Vichay Srivaddhanaprabha) e Jamie Vardy (o avançado de 29 anos que actuava na oitava divisão inglesa há apenas quatro épocas e que chegou, inclusivamente, a estar detido pelas autoridades britânicas), o Leicester encetou uma caminhada gloriosa nesta temporada, aproveitando o desnorte dos clubes ingleses com maior poderio financeiro na actualidade (Chelsea, Manchester City e Manchester United à cabeça, que realizaram campeonatos muito abaixo das expectativas e, principalmente, das suas possibilidades) e o menosprezo de quase todos os seus adversários na sua mais que improvável corrida ao título, que esperavam, jornada após jornada, os deslizes do clube que partilha o nome com a décima maior cidade de Inglaterra. Contudo, esses esperados deslizes não aconteciam e o Leicester manteve-se firme na luta, não cedendo à pressão inerente à liderança da Premier League e aguentando todas as contrariedades de uma época longa e desgastante. A confirmação do sonho tornado realidade surgiu ontem, com o Leicester a beneficiar do empate entre os rivais londrinos Chelsea e Tottenham (segundo classificado), fazendo a festa a partir do sofá, naquilo que é uma clara injustiça para os foxies. Uma equipa que consegue um feito tão extraordinário deve festejar onde travou as suas duras batalhas: no campo. Mas o facto de o triunfo no campeonato advir directamente de mais uma escorregadela do seu perseguidor mais próximo não retira o brilho à turma de Leicester e os seus adeptos não se importam minimamente com este facto.
Apesar de ser gunner, é impossível não sorrir quando me vejo perante um cenário destes: uma equipa que se bate de igual para igual com os grandes "monstros" do futebol inglês com recursos muito inferiores aos dos seus antagonistas e que no final consegue levá-los de vencida é algo que não deixa nenhum apaixonado do desporto-rei indiferente. Testemunhar, nem que seja só por uma vez, a vitória da abnegação e da determinação sobre os "petrodólares" do City, os inesgotáveis rublos injectados por Abramovich no Chelsea e os dólares trazidos pela família Glazer para o United deixam-me bastante contente e com a sensação de que ainda prevalecem até aos dias de hoje alguns dos princípios que estão na génese do futebol.
Claudio Ranieri, o técnico italiano de 64 anos, tem finalmente, já perto do final da sua carreira de treinador, a justiça feita em relação ao seu nome e à sua competência. Lembro-me de ter orientado o Chelsea na época 2003/04, na altura em que Roman Abramovich adquiriu o clube do bairro rico de Londres, e de como foi sacudido do comando técnico dos blues sem apelo nem agravo após uma época não tão bem-sucedida como se previa. Lembro-me igualmente de como o seu trabalho foi ridicularizado por José Mourinho, o seu sucessor, e de como foi maltratado pelo técnico português. Ironia das ironias, é na época em que Mourinho é despedido do Chelsea pela segunda vez (deixando o clube três pontos acima da "linha de água") que Ranieri consegue um feito que parecia inalcançável. Uma "bofetada de luva branca", portanto.
Já que estou nesta toada, e para finalizar, dedico também aqui algumas palavras a Bruno de Carvalho. Porquê? Pelo modo jocoso e despropositado como se referiu ao clube inglês agora campeão naquele tristemente célebre "prolongamento". Para quem não se recorda, o presidente do Sporting referiu-se ironicamente ao Leicester como "esse colosso do futebol mundial", revelando que era o único interessado, à época, na aquisição do peruano André Carrillo. Com essas infelizes declarações, Bruno de Carvalho provou duas coisas: que não consegue distinguir o lugar de presidente de uma grande instituição desportiva do posto de chefe de claque e, mais evidente ainda, que pouco ou nada percebe do fenómeno que é o futebol, que ele tanto se tem esforçado por denegrir.
Até ao próximo rabisco, campeões da perspicácia!

domingo, 24 de abril de 2016

Não se meta nisso, senhor Presidente!

Saudações faustosas, meus leitores.
Barack Obama está a apostar tudo no projecto da União Europeia. É a leitura que se faz depois de ter ameaçado enviar (pela segunda vez no espaço de poucos dias) o Reino Unido para o "fim da fila" dos parceiros comerciais dos Estados Unidos caso o "sim" ao brexit vença no referendo marcado para 23 de Junho. Num périplo pela Europa, o presidente norte-americano referiu-se por duas vezes (uma em solo britânico, outra já na Alemanha) aos riscos que uma eventual saída dos insulares da União Europeia podem trazer à economia britânica, não se coibindo de tentar exercer uma forte pressão sobre aqueles que vêem na cisão do projecto europeu o caminho a seguir. Ao entrar na campanha, Obama está não só a tentar ajudar o seu aliado David Cameron na luta pela permanência na União Europeia (naquilo que parece um pedido de ajuda desesperado feito pelo ocupante do 10 de Downing Street), mas também a bater-se pela continuidade de algo que é essencial à política externa norte-americana.
A União Europeia constitui um desenho geopolítico no "Velho Continente" que sempre agradou à Casa Branca, não só por ser um garante de alguma estabilidade no continente, mas também porque inviabiliza, de certa forma, um alargar da influência da Rússia tanto aos países da Europa Oriental como a alguns países integrantes do centro europeu. É óbvio que um hipotético cenário de uma Europa sob a predominância do Kremlin é tudo o que Obama quer evitar no "tabuleiro de xadrez mundial" jogado entre as duas superpotências.
Para além deste dado de superior importância, acrescenta-se ainda o facto da União Europeia ser vista como uma útil aliada de Washington no combate ao terrorismo. Apesar de não se tratar de uma aliança militar, a UE tem uma estratégia concertada entre os seus países-membros (nem sempre com bons resultados, como periodicamente verificamos) para evitar a ameaça terrorista na Europa. Sendo os Estados Unidos o principal interessado na luta antiterrorista, é toda a vontade norte-americana na manutenção desta cooperação.
Como terceiro ponto da defesa do projecto europeu pela administração Obama surge a convergência de valores e sistemas políticos do eixo EUA-UE. Ainda que haja sempre diferenças entre os governos dos países-membros em virtude das diversas visões políticas que os guiam, a Casa Branca sabe que a União Europeia espelha a sua defesa dos valores da democracia. Aliás, a América não encontra no mundo actual nenhum outro bloco político-económico com tantos pontos de interesse confluentes.
Por todas estas razões, Obama verá como catastrófico um cenário internacional em que surja uma União Europeia desmantelada e, melhor do que ninguém, sabe que ele é bem possível a partir do momento em que o Reino Unido consume a sua saída. Se a União Europeia perde um dos seus pesos-pesados, estou em crer que o projecto ficará ferido de morte e daí até à sua queda estrondosa será uma questão de (pouco) tempo.
Nunca a sobrevivência da União Europeia esteve tão em risco como nesta altura e o ainda Presidente norte-americano tem a noção plena da gravidade da situação. Joga-se uma cartada decisiva no equilíbrio de forças a nível mundial e todos os argumentos servem para a concretização dos objectivos previamente definidos. É evidente que Barack Obama está a fazer um enorme bluff quando fala da eliminação do Reino Unido como parceiro comercial prioritário para os Estados Unidos. Londres foi, é e será sempre um aliado de Washington não só em matéria económica, mas também em matéria política e militar e Obama está perto do final do seu mandato. Portanto, nunca tomaria uma decisão tão radical e que comprometesse tanto a ligação entre as duas partes. Está, por isso, a utilizar uma estratégia de condicionamento da liberdade de voto dos cidadãos britânicos bastante agressiva que tem somente como intuito a salvação da União Europeia.
Têm sido muitas as críticas na abordagem que Obama tem feito ao brexit. Já aqui fiz, em ocasiões variadas, elogios ao actual morador da Casa Branca. Obama é dono de uma inteligência acima da média, marca uma viragem na forma como lida com os diferentes desafios da administração norte-americana e destaca-se pela informalidade, fazendo com que se pareça com um comum mortal quando é, na verdade, o homem que comanda os destinos do país mais poderoso do mundo. Todavia, tenho que juntar a minha voz ao coro de condenações neste ponto. Obama está a meter-se em assuntos que não são seus, sobre os quais não deve pronunciar-se e cujo resultado final da sua discussão deve apenas limitar-se a aguardar. Por muito que lhe custe e que tema o seu desfecho, o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia é uma questão que só diz respeito aos cidadãos britânicos e qualquer tentativa de intromissão externa para influenciar a decisão final é dispensável e acaba por "queimar" a sua imagem. Lamento que se exponha a esse "fogo" quando, na minha opinião, conseguiu destacar-se durante quase oito anos pelas melhores razões. 
Até ao próximo rabisco, amigos da pertinência.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Novelas brasileiras nem sempre são boas

Caríssimos amigos, os meus cumprimentos fraternos.
Dilma Rousseff está no fio da navalha. Depois da aprovação do processo de destituição na Câmara dos Deputados na noite de Domingo, o futuro da Presidente da República do Brasil está agora nas mãos do Senado, onde o já célebre pedido de impeachment necessita agora de uma maioria simples para ser confirmado. O debate e a votação arrastaram-se por quase dez horas e no final foram obtidos 367 votos favoráveis, mais 25 que os necessários (342, representativos dos dois terços obrigatórios), num momento histórico na democracia brasileira e cujo acompanhamento mediático não conhece paralelo. A 11 de Maio têm a palavra final os Senadores brasileiros, mas as projecções dão já como quase certa a saída de Dilma do Palácio do Planalto, deixando a meio o seu segundo mandato no mais alto cargo político do maior país da América do Sul.
Este pedido de destituição do cargo presidencial tem como base as "pedaladas fiscais" (manobra orçamental que transfere as despesas dos ministérios e instituições públicas a serem pagas até ao último dia de um ano para o primeiro dia do ano seguinte e que está proibida pela legislação brasileira) de 2014, mas é evidente que na cabeça da maior parte dos deputados que votaram "sim" está também a forte desaceleração da economia brasileira (que mergulhou o país na recessão) e, acima de tudo, a declarada tentativa de protecção a Luiz Inácio Lula da Silva. O alegado envolvimento do antecessor e mentor da ainda presidente no caso de corrupção "Lava Jato" tem causado enormes constrangimentos ao Partido dos Trabalhadores e a nomeação de Lula como Ministro da Casa Civil na altura em que o seu nome está sob investigação das autoridades brasileiras  não passou despercebida ao (perdoem-me a expressão popular) mais "tapado" dos seres pensantes. É evidente que Dilma só nomeou Lula da Silva para o pôr a salvo das acusações que sobre ele recaem e para evitar que as alegadas provas de envolvimento do ex-presidente em gigantescos esquemas de corrupção lhe possam trazer consequências do foro judicial.
Dilma foi despudorada na manigância, dando uma imagem terrível do que é a política brasileira nas suas mais altas esferas. O que transparece para a opinião pública não é mais do que um governo enleado numa teia de promiscuidade, onde se tenta proteger quem se deixa arrastar para eventuais escândalos de corrupção. A actual Presidente da República quis tanto socorrer o seu amigo pessoal que acabou por se afundar num pântano que não era seu, ao mesmo tempo que incriminou indirectamente Lula.
Ainda que ass "pedaladas fiscais" constituíssem por si só uma irregularidade suficientemente grave e merecedora de uma punição exemplar, Dilma ver-se-á muito provavelmente afastada do cargo pelo estender da sua "asa protectora" a quem já tinha a reputação manchada. Foi demasiado flagrante para não se perceber a intenção da primeira mulher a ocupar o Palácio do Planalto e as consequências não podiam tardar. Apesar de o PT e os seus apoiantes classificarem como "golpe" todo o processo, a verdade é que ele está revestido de legitimidade.
Dilma pode agora seguir as pisadas de Fernando Collor de Mello, que se viu afastado da Presidência da República do Brasil em 1992, depois de se ter também enredado num escândalo de corrupção. Terá de enfrentar a Câmara Alta do Senado e, no caso de serem obtidos 41 votos favoráveis (em 81 possíveis) ao seu afastamento temporário, pode ser arredada do cargo por um prazo de 180 dias, período durante o qual terá de decorrer o seu julgamento. Após esse apuramento da verdade, o Senado vota a destituição da Presidente com cariz definitivo. Ainda que estejamos a algumas semanas da nova votação, no entanto, estou em crer que não passa de uma questão de tempo no adeus de Dilma. A sua sucessão está, inclusivamente, a ser já preparada, com Michel Temer, o actual Vice-Presidente e líder do PMDB, a almejar a ocupação do lugar que pode ficar vago muito em breve.
Todos nós já vimos ficção brasileira de enormíssima qualidade. Os nossos irmãos do outro lado do Atlântico são imbatíveis nessa matéria e, apreciando mais ou menos o género, temos de lhes reconhecer o talento tanto na produção de argumentos como na representação. Esta "novela" pode estar próxima do seu epílogo, mas os "capítulos" que a compõem não deixam de constituir mais um momento triste na democracia brasileira, com um desfecho previsível e que castiga muito mais (como sempre) as "personagens secundárias" (ou seja, o povo) que a "personagem principal". Ao contrário do que é hábito nas produções televisivas da Globo, a "produtora" do Planalto não foi feliz...
Até ao próximo rabisco, amigos atentos às novelas da vida real.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Talvez percebessem se tivessem quatro patas

Aceitem os meus cumprimentos virtuais, queridos amigos.
A lei dos maus tratos a animais está em vigor no nosso país desde Agosto de 2014. A lacuna na legislação portuguesa há muito identificada pelas associações de defesa dos direitos dos animais parecia finalmente colmatada. Estava então prevista a punição legal para quem infligisse deliberadamente dor ou sofrimento a um animal de companhia. Com penas que variavam consoante a gravidade do delito (seis meses de prisão ou multa até 60 dias pelo abandono de um animal, um ano de prisão ou multa até 120 dias por maus tratos e dois anos de prisão ou multa até 240 dias pela morte ou incapacidade grave/permanente em resultado desses mesmos maus tratos), a lei demonstrava uma clara evolução na forma como se encaravam os direitos dos animais e tinha como objectivo primordial uma eficaz protecção dos mesmos.
Quase dois anos volvidos após a entrada em vigor da lei, no entanto, a estatística é preocupante: dos dados referentes ao ano passado, há a registar 1330 queixas por abandono ou maus tratos, mas são poucas as dezenas de casos que deram origem a dedução de acusação e residual é o número de casos que chegou à barra dos tribunais. Ou seja, se até 2014 existia um vazio legal, agora regista-se a dificuldade (ou má vontade) na aplicação da legislação vigente e a consequente impunidade dos infractores.
Para além de se verificarem estes infelizes factos, é ainda de destacar a incoerência observada na lei 69/2014, que prevê a punição do cidadão comum mas é omissa quanto ao abate de animais em canis e gatis municipais. Neste ponto, os números ganham contornos ainda mais dramáticos: segundo os dados oficiais, no ano de 2015 foram abatidos doze mil cães e gatos em Portugal, à média de trinta e três por dia. Se a estatística oficial já é tremendamente chocante, a sua contestação, feita com dados apresentados pelas associações de protecção dos animais, é devastadora para quem tem um coração a bater na caixa torácica: cem mil animais de companhia abatidos em território português em 2015. Perante a crueldade destes números, urge rever a legislação e criar condições para que ela seja cumprida de forma efectiva.
Embora seja um assunto menor para um número elevado de pessoas num país onde a organização de corridas de touros constitui uma atracção bastante popular (e que contou com 13 milhões de euros do erário público no ano passado para a sua transmissão televisiva), a verdade é que os animais têm direitos. Boa parte da sociedade portuguesa não quer ajudar na concretização da sua defesa, considera um desperdício de tempo reflectir um instante que seja sobre eles ou simplesmente não os reconhece. Felizmente, há sempre quem contrarie a tendência e tem-se notado um progresso geral, ainda que tímido, ao nível da sensibilidade humana para com os animais. Prova disso são os mais de 70 mil votos recebidos pelo PAN nas últimas eleições legislativas, que permitiu a eleição de André Silva como deputado e representou a estreia do movimento de defesa dos direitos dos animais e da natureza na Assembleia da República.
Contudo, como facilmente se entende pelos dados que transcrevi para aqui e pelos múltiplos relatos que a comunicação social vai difundindo (bem elucidativos do quão cruel o ser humano pode ser), há um longo e tortuoso caminho por percorrer. A revisão da actual lei tem de ser feita o quanto antes, os abates de animais em centros de recolha não podem continuar a ser usados para controlar as numerosas comunidades existentes, o programa de esterilização tem de ser posto em prática a curto prazo e as autoridades competentes e os magistrados não podem continuar a olhar para o abandono e maus tratos de animais com a leviandade com que o têm feito.
As autoridades estatais não podem prosseguir com esta matança em série. Um animal não pode ser morto apenas porque não encontrou um dono que o adoptasse ao fim de oito dias de permanência num canil ou num gatil municipal. Se há algo que deve morrer é esta medida absolutamente insensível e atroz! Se querem de facto ter uma acção de reconhecido valor nesta área, persigam então quem prevarica. Os maus tratos e os abandonos têm de ser travados pela punição exemplar de quem os leva a cabo.
O problema do controlo dos animais abandonados e/ou errantes é sério e revolta-me constatar que até agora se tenha enveredado pela via economicista, evitando a abordagem profunda do assunto. Para além da já referida esterilização, já era tempo de dar início a um programa de sensibilização social com os objectivos de impedir o abandono e os maus tratos e de incentivar a adopção. Até agora, só as inúmeras associações de defesa e protecção dos animais espalhadas pelo país, que funcionam na sua grande maioria com parcos recursos financeiros, têm ficado com as despesas dessa árdua tarefa. Até quando se manterão sozinhas no combate a um problema que é de todos e ao qual o Estado português insiste em furtar-se? Volto a bater neste ponto: abater animais não é solução para um país que se diz civilizado.
O Parlamento da Região Autónoma da Madeira aprovou uma lei que proíbe o abate de animais nos centros de recolha oficiais. Para além da criminalização por abandono e maus tratos, a nova lei (em vigor desde o último domingo) obriga à procura de alternativas no controlo dos animais errantes e abandonados sem lhes causar a morte. É forçosamente mais abrangente do que a que vigora em território continental e, por conseguinte, mais sensível. Talvez se possa extrair daqui o modelo a aplicar em todo o país. Talvez esteja aqui a ignição que faltava para mudar algo no tratamento dos animais. Talvez possamos ter um Portugal mais amigo dos animais do que tem sido até agora. Talvez...
Até ao próximo rabisco, amigos de duas patas.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Roubaram os papéis a quem ajudou a roubar

Cumprimentos honestos, amigos deste blog.
O escândalo dos "Panama Papers" rebentou há quase uma semana. Onze milhões de documentos foram copiados do sistema informático do escritório panamiano de advogados Mossack Fonseca por acção de "piratas da web" a mando de um consórcio internacional de jornalistas e os nomes dos clientes da também (ou sobretudo) sociedade gestora de fortunas em paraísos fiscais foram tornados públicos pelos meios de comunicação social. Da política ao cinema, passando pelo desporto e pela alta finança internacional, muitos são os nomes famosos que compõem uma lista que todos quereriam manter em segredo. Para mal dos pecados dos inscritos do infame "catálogo" e daqueles que se comprometeram a mantê-lo confidencial, no entanto, vivemos numa era em que pouco ou nada está a salvo de olhares (ou, neste caso, cliques) indiscretos e é tão fácil colocar dinheiro numa empresa off-shore criada para o e feito como é descobrir-lhe o rasto. O número de envolvidos vai aumentando a cada dia que passa e estamos longe de conhecer a verdadeira dimensão de todo o esquema, mas para já destacam-se os nomes de Vladimir Putin de Pilar de Bourbon,, de David Cameron, de Pedro Almodôvar, de Clarence Seedorf, de Axel Witsel e de Lionel Messi.
Como tem sido veiculado em inúmeros artigos jornalísticos e peças noticiosas que têm dado ampla difusão ao assunto, colocar dinheiro num paraíso fiscal não constitui, por si só, nenhum crime. Todavia, quem recorre a esta solução um tanto ou quanto obscura fá-lo , por norma, para branquear capitais provenientes de actividades pouco lícitas como o são, reconhecidamente, o tráfico de droga ou de armas. Ainda que existam no rol de clientes da Mossack Fonseca alguns casos deste género, será a evasão fiscal e os lucros de complexos esquemas de corrupção a comprometerem os ilustres nele constantes. As fortes cargas fiscais exercidas sobre elevadas fortunas nos países de origem ou nos países onde executam a sua actividade profissional/negocial deixam os seus detentores À beira de um ataque de nervos e a fuga, se houver possibilidade de a alcançar, não é enjeitada por aqueles cujo apetite por dinheiro não conhece limites. A corrupção, um vício comummente  atribuído aos ocupantes de cargos com poder de decisão, vê igualmente nas sociedades off-shore um aliado perfeito para a sua continuidade, visto que os lucros provenientes dessa actividade criminosa são depositados em paraísos fiscais, onde estão, à partida, a salvo do escrutínio dos órgãos de investigação competentes na matéria. Ou estavam...
A divulgação dos "Panama Papers" despoleta a revolta no mais comum dos cidadãos, que se vê confrontado diariamente com dificuldades para cumprir com as pesadas contribuições de impostos, que não abrandam na pressão que exercem. Onde está a justiça fiscal quando um vulgar contribuinte tem de pagar impostos de toda e qualquer espécie e aqueles que mais ganham arranjam forma de se esquivar às suas obrigações contributivas? Onde está a moral e a ética daqueles que dizem bater-se pelo combate à fuga ao fisco e se arvoram como esteios da caça aos corruptos e, mal damos conta, são os primeiros a prevaricar?
Não se pense que este é um problema de um só país ou de uma só área profissional. Como demonstra a investigação, há dezenas de nacionalidades envolvidas e a teia apanha figuras importantes de vários quadrantes, revelando que se está perante um problema de dimensão mundial e cuja transversalidade é inequívoca. Isto sugere que haja um esforço a nível global para se conseguir uma concertação que ponha um ponto final na vergonha que constituem as empresas off-shore e os paraísos fiscais onde estão sedeadas. O apertar da malha em termos de investigação não é suficiente para pôr cobro a este atentado à conduta moral mais correcta. Há que lutar por medidas que proíbam a existência destas sociedades que lesam milhares de milhões de pessoas pelo mundo fora.
Cenário utópico, pensarão. Pelo que facilmente se compreende pela robustez dos nomes implicados, os interesses em jogo são muito elevados e fazer-lhes frente é uma tarefa hercúlea. No entanto, não se pode desistir de tentar combater os "monstros sagrados". Se não se lutasse pela justiça ao longo dos séculos, ainda hoje a escravidão era encarada com naturalidade. A mudança só pode ser feita com recurso a duas premissas: inteligência e coragem.
Como já aqui disse, ainda estamos muito longe de saber tudo acerca deste processo e tenho para mim que nos havemos de surpreender bastante quando forem divulgados todos os implicados. Confesso que estou algo expectante para saber a que nomes correspondem o lote de 34 portugueses que estão relacionados com o caso. Sejam eles quem forem, só tenho um desejo: que tudo seja devidamente apurado. Os montantes, os seus possuidores, as razões pelas quais foram depositados nas off-shore, tudo até ao último pormenor. Se no final da investigação houver matéria para abertura de processos judiciais, então que se avance para ela sem hesitações. Este gigantesco escândalo não pode passar sem consequências para quem agiu de má-fé e prejudicou o Estado português.
Tenho a esperança de ver este caso tornar-se um ponto de viragem na forma como são geridos os capitais nos paraísos fiscais. Os "Panama Papers" estão a abalar fortemente as estruturas de poder por todo o mundo e as implicações já se fazem sentir. A Islândia tem o seu Governo prestes a cair por conta da ligação do primeiro-ministro ao escândalo e David Cameron já viveu melhores dias no n-º 10 de Downing Street. Sentemo-nos comodamente a ver o resto do "filme, meus amigos. Ele ainda está apenas a começar...
Até ao próximo rabisco, amigos da seriedade.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O terror dominará enquanto não dominarmos quem o domina

Saudações cordiais, meus amigos.
Aconteceu de novo. O terrorismo do Daesh voltou a ferir o coração da Europa, apenas quatro meses depois da sua última incursão, que ceifou a vida a 130 pessoas em Paris. Bruxelas sentiu na pele a cobardia dos radicais islâmicos, que continuam a ver na liberdade de pensamento dos europeus uma agressão ao seu fundamentalismo religioso. Assiste-se a uma escalada de violência nos últimos tempos que só conhece paralelo nas acções da Al-Qaeda na primeira metade da década de 2000, arrastando para a morte dezenas de pessoas cujos únicos "crimes" cometidos são o os de serem ocidentais e viverem de acordo com os costumes característicos dessa condição. Indiscriminadamente, os jihadistas do Daesh vão fazendo vítimas em nome de um Alá que não as clama enquanto nós, apavorados e impotentes, vamos acompanhando o desenrolar dos acontecimentos e esperando que não sejamos os próximos alvos. Por enquanto, temo-nos mantido a salvo, mas a pergunta impõe-se com a força esmagadora da realidade: até quando?
Os atentados têm-se registado em países onde a comunidade islâmica é bastante numerosa e onde a sua exclusão social é um facto irrebatível. Sejamos claros e corajosos na hora de assumir erros: o radicalismo entra com muito mais facilidade nas comunidades que estejam desenquadradas do contexto social dominante do que naquelas que estejam bem integradas  numa sociedade que as considere como suas. A França e a Bélgica, falhas lhes sejam apontadas, não se preocuparam em incutir na comunidade muçulmana existente nos respectivos territórios aquele sentimento de pertença que é necessário para que os seus membros não se sintam marginalizados. Em vez da integração, os sucessivos governos de ambos os países (e de outros com problemas idênticos...) optaram, durante as últimas décadas, por colocar os imigrantes oriundos do Magrebe em bairros urbanística e socialmente desordenados na periferia das grandes cidades, acentuando o estatuto de autênticos ghettos que já detinham. As condições de vida nestes locais, como se sabe, não são propriamente fáceis e as oportunidades de as melhorar não abundam, estando os seus habitantes muito vulneráveis tanto à sedução da delinquência primária como ado crime organizado. Um campo fértil para o radicalismo religioso, astuto na percepção da fraqueza humana e ágil no seu aproveitamento para os terríveis objectivos que definem o seu perverso carácter. Quando se cometem erros desta natureza, as consequências podem ser devastadoras. Para infelicidade de quem os comete e para mal dos que sofrem com os seus efeitos, têm-no sido.
Mas piores que os lapsos do passado são aqueles que se constatam no presente. Para além de se continuar a verificar a ausência de uma política eficaz de inclusão, penso que os países que têm sido alvo dos atentados e a restante comunidade internacional não têm reagido de forma adequada aos constantes e cada vez mais frequentes ataques dos jihadistas. Estou em crer que a ameaça do Daesh na Europa não será eliminada só com a tentativa de controlo das células terroristas, que nem sempre tem sido bem-sucedido, e com a ofensiva aérea na Síria, que não tem produzido os resultados desejados. Embora haja enorme relutância em relação a uma intervenção militar terrestre, tenho a certeza que a única hipótese de destruir o Daesh por completo será com tropas em solo sírio, onde se concentram a maior parte dos combatentes do grupo terrorista e onde são treinados os operacionais que levam a cabo os atentados na Europa. Só assim se poderá manietar aquele que é o maior perigo para o mundo ocidental na actualidade e se poderá tentar uma resolução satisfatória para o conflito na Síria, que já dura há cinco anos. Esta é, a meu ver, a única forma de evitar a ameaça terrorista, assim como é a única forma de promover a estabilidade naquela área do globo e, consequentemente, conter o fluxo migratório dali proveniente.
Já pouco me importa de onde partirá a decisão de combater os jihadistas no terreno. Não sei se é a ONU, se é a NATO ou se é outra qualquer aliança político-militar, mas que seja uma que aniquile de vez este perigoso grupo de islamo-fascistas e que o faça o quanto antes. A comunidade internacional continua a não valorizar devidamente o potencial destrutivo desta gente, mesmo que o impacto das suas acções seja tão brutal. Será que temos de esperar pelo dia em que nos "baterão a porta", para tomar uma posição de real força? Sim, porque é essa a baliza do grupo extremista sunita: restabelecer o antigo Califado de Córdova dos séculos X e XI, no qual se incluía grande parte da Península Ibérica (ou, como lhe chamam, o Al-Andaluz).
Temo bastante esta relativa inércia do mundo ocidental e fico sem saber o que mais será necessário para que ocorra uma mudança de atitude. O Daesh vai estendendo a sua influência pelo Médio Oriente e pelo Norte de África, inferniza a vida de milhões de pessoas na Síria, no Iraque e na Líbia, ataca no centro da Europa e intimida outros países do "Velho Continente". Continuamos, portanto, a permitir que o terror domine em vez de dominar quem o domina.
As ameaças dos radicais islâmicos, mais ou menos credíveis, vão também sendo feitas a Portugal. Para já, temos estado a salvo da sua concretização, mas volto a colocar a questão do início do artigo: até quando? A resposta, apesar de assustadora, parece-me a mais realista: a não ser que a atitude do Ocidente mude, não por muito tempo.
Até ao próximo rabisco, amigos em alerta.

sexta-feira, 18 de março de 2016

O progresso matou a imprensa escrita

Respeitosas saudações, caros leitores.
Saiu hoje para as bancas a última edição do Diário Económico. Após 26 anos de actividade, a publicação diária que se dedicava quase exclusivamente a trabalhar a informação económica deixa de poder ser lida no formato de papel, passando a estar somente disponível em formato digital na Internet e em formato audiovisual no canal de televisão por cabo. Há muito que se antevia este desfecho, já que a delicada situação financeira era por todos sobejamente conhecida. Com os salários em atraso aos seus 126 colaboradores a avolumarem-se e as dívidas ao Fisco e à Segurança Social a seguirem o mesmo caminho, a administração optou pelo emagrecimento de despesas derivadas da publicação em papel. É mais um importante título que desaparece, imitando o destino de tantos outros que o antecederam. A crise na imprensa escrita está a nu e tem-se intensificado nos últimos anos. Nada surpreendente, pois não?
O hábito de se comprar um jornal foi perdendo força nas últimas décadas, todos o sabemos. São muito poucos os que ainda cumprem o ritual diário de sair pela manhã, dirigir-se à tabacaria ou ao quiosque mais próximos e adquirir aquele montículo de folhas de papel disposto de forma perfeita e de aroma inconfundível. Isso é do "tempo dos afonsinhos", dirão os integrantes das gerações mais jovens, que se habituaram a aceder à informação através dos canais noticiosos da televisão por cabo ou, com maior frequência ainda, através dos vários sites na Internet. Bem vistas as coisas, quem é que está disposto a sair de casa para comprar o jornal quando pode ter acesso às mesmas notícias que ele contém com um simples toque no comando da televisão ou nas teclas do laptop ou, mais sofisticado ainda, no ecrã de um ultra-moderno smartphone? Podemos também analisar a situação pela perspectiva financeira e aí constatamos que tanto o formato físico como os formatos digital e audiovisual implicam custos, mas, com a oferta de pacotes combinados de televisão e Internet actualmente existente no mercado, depressa se conclui que a compra diária de um único jornal é bem mais desvantajosa para o porta-moedas. Há ainda a acrescentar a velocidade de acesso, a diversidade de conteúdos e a multiplicidade de funções que a televisão e a Internet nos dão de mão-beijada e com as quais a velha imprensa não tem qualquer hipótese de competir. A realidade é o que é e o ser humano deixou de lado o romantismo para passar a ser prático. 
Perante a força com que se apresentam as circunstâncias, é normal que as administrações das mais variadas publicações tenham de tomar decisões difíceis. As despesas com o tratamento de imagem, a tiragem e a distribuição dos exemplares pesam bastante no orçamento e os títulos que se destinam a nichos de mercado têm imensas dificuldades em lidar com elas, já que os lucros provenientes das vendas e da publicidade (necessariamente mais barata, visto que os anunciantes não querem pagar muito por baixa cobertura) não são suficientes para lhes fazer face. Não espantará, portanto, se continuarmos a perder jornais de qualidade como o Diário Económico nos próximos tempos.
Guttenberg estará a dar voltas infindas no seu túmulo, mas é bastante provável que aquilo que já se vaticinou há alguns anos esteja prestes a concretizar-se: a imprensa escrita, tal e qual como a conhecemos, tem os seus dias contados. Aponta-se o ano de 2041 como limite para a utilização do papel como veículo transmissor da notícia, mas, pelo "andar da carruagem", não precisaremos de esperar tanto para nos despedirmos do velhinho jornal. O progresso é insaciável na sua procura pela perfeição e vai fazendo vítimas no seu imparável percurso vitorioso, ignorando as questões afectivas. Para o final só resistirão os mais fortes e, para meu grande desalento, neles se incluem aqueles títulos que alguém um dia baptizou como baluartes do «jornalismo de retrete». Sim, meus amigos, preparem-se: os derradeiros bastiões da imprensa escrita serão aberrações jornalísticas como o Correio da Manhã e outros semelhantes, que, para nosso azar, ainda vivem dias de vigor e pujança.
Até ao próximo rabisco, selectivos amigos!